segunda-feira, 28 de abril de 2008

FESTA DOS NEGROS DO ROSÁRIO: ENREDOS INICIAIS


Apure seus ouvidos, ouça os sons, pois irão começar as festividades alusivas a São Sebastião e Nossa Senhora do Rosário em Jardim do Seridó-RN. O calendário marca 30 de dezembro, enquanto o sino da Igreja, do alto do seu campanário, bate seis pancadas para anunciar a hora do Ângelus. Um pouco distante dali, ouve-se o estourar dos foguetões, proclamando o início da recitação do Rosário à Virgem Maria. Defronte à “Casa do Rosário”, já estão expostas para veneração dos fiéis as imagens dos santos cultuados, em seus andores ricamente ornados de flores.
Homens, mulheres e crianças começam a recitar os padre-nossos e as ave-marias, como que oferecendo rosas à Virgem Mãe de Deus. A cada dez ave-marias entoa-se um bendito mariano. As horas vão passando e as orações se tornando cada vez mais cansativas; os impacientes começam a olhar para o relógio, contando os minutos que se passam. Neste momento, o clima de oração é atrapalhado pelo som da Banda de Música Euterpe Jardinense, que se aproxima para animar a procissão, que acontece logo após a recitação do Rosário. Concluída as 150 ave-marias, reza-se a oração da Salve-Rainha, como que, para coroar o final do Rosário.
Este primeiro momento é seqüenciado pela procissão. À frente do cortejo a cruz procissional ladeada por duas tochas, são conduzidas por senhores vestidos de opas branca. Em seguida, duas filas são formadas pelas senhoras e senhores pertencentes às associações da Paróquia. Mulheres de branco com fitas marrons no peito, pertencem a Pia União de Santa Terezinha; mulheres de azul marinho com fitas vermelhas formam o Apostolado da Oração. A banda entoa o dobrado “Cônego Ambrósio”, característica das procissões em Jardim do Seridó-RN. Seguindo o cortejo, quatro senhoras negras conduzem as bandeiras em homenagem aos santos festejados. Atrás delas, formando três filas, os Negros do Rosário perfilam com suas bandeiras e espontões. Ver-se também os andores com as venerandas imagens de São Sebastião e Nossa Senhora do Rosário, sendo conduzidas pelos fiéis.
Encerrado o dobrado, os Negros do Rosário iniciam as “danças do espontão”, marcando os passos ao som dos tambores trovejantes e dos pífaros. Os sinos da Igreja Matriz repicam alegremente, convocando os fiéis a entrarem na esfera do sagrado e tomar parte da caminhada. O cortejo se aproxima da Igreja, cujo paltamar encontra-se repleta de pessoas aguardando a chegada da procissão e o início dos ritos litúrgicos, que acontecem no interior do templo.
Ao som do hino de São Sebastião, tocado pela banda de música, os sacerdotes elevam aos céus as bandeiras que foram conduzidas em procissão. Circundando o mastro, os Negros do Rosário, também elevam os seus espontões (bastões enfeitados com fitas coloridas em suas extremidades superiores), como que com este gesto estivessem tocando o sagrado, e depositando suas angústias, sofrimentos e esperanças. Aplausos, foguetões e os sinos da matriz emocionam os “sujeitos crentes”, estabelecendo uma relação de troca com o santo de devoção, através de promessas feitas com auxílio de preces. Pedem-se saúde, chuva, dinheiro, enfim uma profusão de elementos que compõem o universo de desejos e interesses daqueles que rezam.
Hasteadas das bandeiras, os Negros do Rosário formam um corredor e com os espontões elevados para o alto, dão passagem aos sacerdotes e as imagens de devoção. Em seguida, aos aplausos dos presentes, os Negros do Rosário adentram ao templo sagrado, dançando com os espontões na mão; emocionando os presentes com os sons estridentes dos velhos tambores e pífaros a entoarem suas melodias, que em virtude das largas paredes do templo, torna uma acústica que fazem os corações vibrares mais forte.
Através destas danças, os Negros do Rosário se concentram defronte ao altar-mor. Os tambores sempre tocando, todos ao mesmo tempo, enquanto os outros negros improvisam os passos. Neste momento, os sacerdotes e os fiéis assistem ao espetáculo de devoção à Virgem do Rosário e espera o “Capitão de Lança” levantar a voz e pronuncias as loas:
Viva Nossa Senhora do Rosário!
Viva São Sebastião!
Viva as pessoas de bem!
Viva a boa sociedade, tronco, ramos e raízes!
Após cada verso pronunciado, os demais Negros do Rosário repetem em coro: “viva!”. Ao termino desta apresentação”, dá-se início a parte litúrgica, segundo os ritos católicos, constituída de novena, comunhão e benção solene do Santíssimo Sacramento.
Diego Marinho de Gois
Bacharel e Licenciado em História pela UFRN
E-mail: dieguitogois@yahoo.com.br

Um comentário:

rio.gomes disse...

Idéia louvável, Diego, a de servir de fonte de pesquisa para o ensino básico e ensino superior. Aliás, linkei este blog ao meu (http://rommario.zip.net)

Abraço,
Romário Gomes